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No livro, e filme homônimo, Alta Fidelidade, Nick Hornby discorre: "Algumas das minhas canções favoritas: "Only love can break your heart", "Love Hurts" e "How can you mend a broken heart". O que veio primeiro, a música ou a dor? Pessoas se preocupam com crianças brincando com armas ou assistindo vídeos violentos, e que alguma algum tipo de cultura da violência vai tomar conta deles. Ninguém se preocupa com as milhares de músicas sobre corações partidos, rejeição, dor e perda. Eu comecei a ouvir música pop por que era infeliz, ou era infeliz porque ouvia música pop?”
O fim de um relacionamento: dor, brigas, discussões, separações de bens, e mais. Nada mais justo que se procure em músicas, filmes, literatura, um conforto para esse momento de cisão. O casal formado pela atriz Janaina Leite e pelo músico e filósofo, Fepa, encontraram conforto em uma série de “festas da separação” para que seus amigos e família pudessem se acostumar com o fato de estarem se divorciando. Essas “comemorações” foram registradas por camêras e todo esse material, junto com outros em vídeo do casal, foram reunidos no documentário cênico dirigido por Luiz Fernando Marques.
Afinal, o que é um documentário cênico?
Esse conceito de ser um documentário cênico e não uma peça teatral, é discutido pelo ex-casal logo no começo da apresentação e começa a fazer sentido no decorrer dos seus 75 minutos, tanto que Fepa ressalta o tempo todo que não é ator: “só aceitei participar por poder ser eu mesmo dentro dessa história”, deixando claro que o que se passa no palco é apenas uma discussão sobre suas experiências pessoais. Aliados às projeções e incisões musicais e intervenções da platéia, tudo rola de forma perfeitamente orgânica e fluida.
Janaina explica melhor como todo esse projeto foi concebido: ” Foi a partir de um fato real de nossa vidas pessoas que se desdobrou em uma experiência artistica. Quando a gente resolveu se separar começamos a pensar em alguns itens relacionados a idéia de amor, de formato e como se dão os começo e os fins da uniões amorosas e deu início ao projeto. Em um momento a gente começou a juntar essas coisas.”
Mesmo tratando-se de um casal recém-divorciado, a apresentação não vê como vilão o fim de um relacionamento, mas sim como parte de uma realidade como explicar o diretor Luiz Fernandes: ” Existe muita coisa sobre os inicios, meios e encontros e pouquíssimas coisas sobre o fim. Essa também é uma palavra que a gente nem gosta de usar porque ela significa uma quebra, um racha, guerra, final. Não é final, com carrascos e vítimas. Não que não tenha dor e uma série de outras coisas, mas não necessariamente precisa seguir esse caminho. Vivemos em uma sociedade onde se preza a eternidade e ela necessita começar a perceber o trânsito nas relações, assim, a arte ajuda a criar um espaço para cumpir ese papel.”
A Origem do fim
“A última vez que eu te vi nós tinhamos nos separado em dois. Você estava olhando para mim, e eu para você. Você me parecia muito familiar mas eu não conseguia te reconhecer pois você tinha sangue em seu rosto e eu nos meus olhos. Mas eu podia jurar por sua expressão que a dor em sua alme era a mesma na minha. Aquela dor, que corta uma linha reta direto a nossos corações, é o que chamamos de amor. Então, nos abraçamos e tentamos nos enterrar um no outro novamente.” (Trecho de A Origem do Amor, de Platão.)
Em 500 dias com elao garoto Tom Hansen “cresceu acreditando que nunca seria feliz até que encontrasse a garota certa. Essa crença foi estimulada por uma exposição precoce à música pop britânica e uma má compreensão do filme A primeira noite de um homem.” A dupla, mobilizada por questões relativas às práticas amorosas do homem contemporâneo - a crise do casamento e a manutenção do modelo romântico como única perspectiva para a vida de um casal, sobretudo para essa geração - decidiram elaborar o espetáculo.
Claro que certas divergências de seus pontos de vista ficaram evidentes em dicotomias que aparecem na forma como os dois protagonistas foram buscar consolo e uma explicação para o fim do amor: enquanto Janaina focou sua busca na filosofia e palestras, Fepa foi encontrando novo sentido e novas explicações em filmes e músicas. A forma como os dois pouco interagem mostra quão pessoal é a experiência que eles transmitem em palco, quase como um dois solos executado simultaneamente.
Festa da Separação é um cutucar de feridas, tanto para o público, como para o casal separado, mas talvez seja, o melhor jeito de se cicatrizar feridas que poderiam continuar para sempre abertas. “Pensar no amor não é diferente de pensar em como voce se relaciona em outros aspectos como amizade e trabalho. Você está sempre se posicionando e que tipo de relação você quer ter? O que você dá para o outro que acaba sendo tão pesado para os dois? Se é possivel nventar o fim, essa festa de separação, é possível inventar outro começo, outro meio. Nunca fizemos isso para ser terapia, mas sim para ser um objeto de arte.” E para todos inícios existe um fim, com direção de Luiz Fernando Marques e concepção e execução de Janaina Leite e Fepa.